Fernanda Lopes de Almeida
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A autora fala sobre suas obras, a importância da escola, as leituras da sua infância e o pioneirismo na literatura infantil brasileira.

Ática: Você faz parte do grupo de escritores que renovou a literatura infantil brasileira na década de 1970. Criou histórias que subvertem os padrões preestabelecidos e também trazem às crianças temas antes considerados "para adultos". O que a motivou nesse processo?

Fernanda: O meu estreito convívio com crianças, não só profissionalmente, como na vida familiar. Eu conhecia muito de perto o universo infantil e sempre soube que criança pensa profundamente, muito mais profundamente que o adulto médio. É possível falar de quase tudo com as crianças, desde que com delicadeza.

A: A Fada que tinha ideias é uma de suas criações mais conhecidas e premiadas. Ao lado dela, estão Soprinho e a clássica coleção Passa Anel. E hoje você continua produzindo histórias para os pequenos, como O Rei Maluco e a Rainha Mais Ainda, de tão boa aceitação. Existe diferença ao escrever para crianças de gerações tão diversas?

F: No meu caso existe pouca diferença, porque me interesso principalmente por aspectos que não mudam com as épocas, por temas sempre presentes na alma humana. Se, além disso, você não usa linguagem muito datada, as histórias são sempre atuais.

A: Quais eram as leituras preferidas da menina Fernanda? De que forma elas influenciam sua obra?

F: Minha leitura preferida era toda e qualquer uma. Sempre fui uma leitora apaixonada, lia boa e má literatura, tudo que me caísse nas mãos. Minha avó, quando eu ia visitá-la, brincava que ia passar a esconder todo material impresso que houvesse na casa. Acho que essa miscelânea de leituras foi muito boa para mim. Me deu uma visão do mundo mais abrangente do que se só lesse literatura escolhida. Mas da chamada boa literatura li muito também. Li, aliás, toda a literatura infantil que havia na época, dos contos de fada ao Lobato inteiro. É claro que tudo isso influenciou, e muito, a pessoa que vim a ser e, por extensão, a minha obra.

A: Para você, qual é o papel da literatura infantil em um país como o Brasil, ainda em processo de formação de leitores?

F: O principal papel é exatamente esse: formar leitores. Formar leitores é formar pensadores. No sentido menos pomposo e mais modesto da palavra: pessoas que pensam. É disso que qualquer país precisa.

A: A escola e a figura do professor são muito presentes em suas histórias. Qual a relação ideal a ser estabelecida entre criança e escola?

F: Não há propriamente a relação ideal, pois as relações, quaisquer que sejam, nunca são ideais. Há sempre o que melhorar. Mas a relação boa com a escola é aquela em que a criança tem espaço para indagar. O verdadeiro conhecimento nasce da permanente indagação.

A: Você foi uma das pioneiras em trabalhar com livros infantis cujas ilustrações não fossem simplesmente um adereço – eram parte da história também. Fez, inclusive, muitos roteiros de ilustração para suas obras. Como você vê essa conjunção de linguagens?

F: Inventei esse recurso do "roteiro das ilustrações" exatamente para o ilustrador poder transmitir em imagens o que eu estava querendo dizer sem palavras. E deu muito certo. Acabei de repetir  esse processo no livro Deixa que eu não faço. A ilustradora Tatiana Paiva captou perfeitamente a ideia e tivemos uma experiência de trabalho muito produtiva.

A: Considerando tudo que você cria e já criou para as crianças, qual seu principal propósito ao pensar em seus leitores? Que mensagem você gostaria de deixar aos pequenos e aos educadores?

F: Nunca pensei em qual o meu principal propósito, porque os propósitos são muitos. Mas se é para falar de um, digo que acho importante ajudar a criança a descobrir quem é e, em consequência, quem pode vir a ser. Isso da forma mais bem-humorada possível, porque criança adora a alegria. Mensagem? Acho que minhas mensagens já estão nos meus livros. Mas são mensagens abertas, que cada pequeno leitor vai aproveitar ao seu modo. Nada de lições definitivas, mesmo porque não existem lições definitivas. Como já disse alguém – não me lembro quem – a vida é um dia de aula.